Josevan Santos
A maldição política de Várzea Grande: por que a segunda maior cidade de Mato Grosso continua sem água e sem desenvolvimento?
Entre promessas, crises e décadas de abandono, município convive com problemas históricos que atravessam governos e desafiam eleitores
Várzea Grande Várzea Grande é uma cidade de contrastes. Com mais de 300 mil habitantes, localização estratégica ao lado da capital Cuiabá, aeroporto internacional, forte atividade comercial e posição privilegiada no coração de Mato Grosso, o município deveria ser uma das cidades mais desenvolvidas do Centro-Oeste. No entanto, a realidade enfrentada diariamente pela população está longe desse cenário.
Falta de água, infraestrutura precária, crescimento urbano desordenado, problemas de mobilidade e sucessivas crises administrativas transformaram Várzea Grande em um dos maiores paradoxos do Estado.
Em pleno ano eleitoral, uma pergunta volta a ecoar entre moradores dos bairros mais antigos e das regiões periféricas:
Por que Várzea Grande não consegue romper o ciclo de atraso que atravessa décadas?
A cidade que cresceu mais rápido do que conseguiu se organizar
O crescimento populacional de Várzea Grande ocorreu de forma acelerada ao longo das últimas décadas.
Novos bairros surgiram em ritmo muito superior à capacidade de investimento do poder público. Enquanto a cidade expandia territorialmente, os sistemas de água, esgoto, drenagem e mobilidade ficaram para trás.
O resultado foi uma cidade que cresceu, mas sem planejamento compatível com sua importância econômica.
Especialistas em gestão urbana apontam que muitos dos problemas atuais são consequência de decisões tomadas há décadas, quando o crescimento urbano ocorreu sem os investimentos necessários em infraestrutura básica.
A crise da água que atravessa gerações
Nenhum problema simboliza mais a realidade várzea-grandense do que a falta de água.
Enquanto cidades menores conseguiram modernizar seus sistemas de abastecimento, Várzea Grande continua enfrentando interrupções frequentes, rompimentos de adutoras, falhas em estações de tratamento e baixa capacidade de distribuição. Nos últimos meses, diversos bairros voltaram a registrar problemas de abastecimento causados por falhas operacionais e manutenções emergenciais no sistema.
A situação é tão grave que o próprio Governo do Estado, Prefeitura, Ministério Público e Tribunal de Contas assinaram recentemente o TAC "Aliança pela Água", reconhecendo a necessidade de uma reestruturação urgente do sistema de abastecimento do município.
Para muitos moradores, a falta de água deixou de ser uma exceção para se tornar parte da rotina.
A cada nova gestão, surgem promessas de solução definitiva. Porém, o problema permanece.
O DAE: um problema estrutural ou político?
O Departamento de Água e Esgoto de Várzea Grande (DAE) tornou-se um dos temas mais sensíveis da política municipal.
Ao longo dos anos, a autarquia foi alvo de críticas por falta de investimentos, dificuldades financeiras, problemas operacionais e influência política em sua gestão.
Recentemente, o DAE anunciou novas obras, modernização de equipamentos, ampliação de adutoras e recuperação de estações de tratamento.
Apesar disso, a população continua cobrando resultados concretos.
Para muitos analistas, a crise hídrica deixou de ser apenas uma questão técnica e passou a representar um símbolo do fracasso histórico do planejamento público na cidade.
A política das famílias e o ciclo que nunca termina
Outro fator frequentemente apontado por observadores políticos é a forte influência de grupos tradicionais na administração municipal.
Durante décadas, Várzea Grande foi marcada pela presença recorrente de lideranças e famílias que se alternaram no comando do Executivo e do Legislativo.
Embora governos diferentes tenham assumido a prefeitura ao longo dos anos, muitos moradores afirmam que os problemas fundamentais permanecem praticamente os mesmos.
A percepção popular é de que a disputa política muda os nomes, mas raramente altera os resultados.
Desenvolvimento travado
Mesmo localizada em uma região estratégica, Várzea Grande ainda enfrenta dificuldades para atrair investimentos em escala compatível com seu potencial.
Empresários frequentemente apontam gargalos como:
Infraestrutura deficiente;
Problemas de mobilidade urbana;
Falta de planejamento territorial;
Burocracia administrativa;
Deficiência em serviços públicos essenciais.
Enquanto Cuiabá concentra grande parte dos investimentos privados e públicos, Várzea Grande muitas vezes acaba assumindo papel secundário, apesar de sua importância econômica.
A população paga a conta
Quem mais sofre com essa realidade é o cidadão.
Moradores enfrentam torneiras secas, ruas deterioradas, dificuldades no transporte e serviços públicos que muitas vezes não acompanham o crescimento da cidade.
Nos bairros mais afastados, a sensação é de abandono.
Já nas regiões centrais, a cobrança é por modernização e melhorias estruturais capazes de transformar Várzea Grande em uma cidade à altura de sua relevância.
O desafio das eleições
As eleições municipais reacendem um debate que parece nunca terminar.
Candidatos apresentam planos, prometem investimentos e anunciam soluções para problemas históricos.
Mas a população já ouviu discursos semelhantes diversas vezes.
O eleitor várzea-grandense chega ao novo ciclo eleitoral carregando uma pergunta simples e poderosa:
Quem será capaz de fazer aquilo que nenhuma gestão conseguiu nas últimas décadas?
Uma cidade rica com problemas de cidade pobre
Várzea Grande possui localização privilegiada, força econômica, população trabalhadora e importância estratégica para Mato Grosso.
Em teoria, tinha tudo para ser uma referência em desenvolvimento urbano.
Mas a persistência de problemas básicos, especialmente a crise da água, expõe uma realidade desconfortável: o potencial da cidade continua maior do que os resultados entregues por sucessivas administrações.
Talvez a verdadeira "maldição política" de Várzea Grande não esteja em um governo específico.
Talvez esteja na incapacidade histórica de transformar promessas em soluções permanentes.
E enquanto essa resposta não chegar, a cidade continuará convivendo com uma pergunta que atravessa gerações:
**Como a segunda maior cidade de Mato Grosso ainda luta para garantir aquilo que deveria ser básico: água na torneira e qualidade de vida para sua população?**




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