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Várzea Grande,07/05/2026

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Josevan Santos

Dois pesos, duas medidas? Casos envolvendo técnicas de enfermagem expõem tratamento desigual e silêncio institucional

Enquanto profissional do caso Benício foi exposta publicamente após erro grave, técnica envolvida em denúncia contra senador segue protegida — e levanta debate sobre atuação seletiva dos conselhos

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Dois pesos, duas medidas? Casos envolvendo técnicas de enfermagem expõem tratamento desigual e silêncio institucional Dois pesos, duas medidas? Casos envolvendo técnicas de enfermagem expõem tratamento desigual e silêncio institucional

Dois episódios recentes envolvendo técnicas de enfermagem reacenderam um debate sensível e necessário dentro da categoria: a forma como erros, denúncias e responsabilidades são tratados — tanto pela opinião pública quanto pelos órgãos de fiscalização profissional. De um lado, o caso do menino Benício, marcado por um erro técnico grave na administração de medicação. De outro, a denúncia envolvendo um senador da República, onde a técnica de enfermagem aparece como vítima. O contraste entre os dois cenários revela uma possível disparidade na atuação institucional e no suporte oferecido às profissionais.


Erro técnico com consequências graves: o caso Benício

O caso que ganhou repercussão nacional envolve a administração de adrenalina por via venosa em um contexto considerado inadequado para o quadro clínico do paciente. A medicação, de uso crítico e altamente sensível, exige conhecimento técnico rigoroso quanto à dose, diluição e via de administração.

A técnica de enfermagem responsável pelo procedimento acabou sendo imediatamente exposta. Sua identidade foi amplamente divulgada, ela concedeu entrevistas, tentou justificar sua conduta e se viu no centro de uma pressão pública intensa — tudo isso antes mesmo da conclusão de uma investigação técnica detalhada.

O episódio levanta questionamentos relevantes dentro da prática assistencial:

  • Houve falha individual ou sistêmica?
  • Existia supervisão adequada?
  • O ambiente de trabalho favorecia erros (sobrecarga, falta de protocolos, pressão)?

Apesar dessas questões estruturais, o foco rapidamente recaiu exclusivamente sobre a profissional.


Denúncia de violência: um cenário oposto

Em outro caso de grande repercussão, uma técnica de enfermagem denunciou ter sido vítima de violência durante a realização de um exame clínico envolvendo uma figura pública de alto escalão político.

Diferente do caso anterior, a identidade da profissional foi preservada. O tratamento institucional foi imediato no sentido de acolhimento da denúncia, com posicionamentos firmes de entidades da enfermagem, notas públicas e manifestações de apoio.

Aqui, a narrativa muda completamente:

  • A técnica é protegida
  • Sua versão ganha respaldo institucional
  • Há mobilização rápida de conselhos e entidades

O ponto central: onde está o equilíbrio?

O paralelo entre os dois casos escancara uma questão incômoda: a atuação do sistema de fiscalização profissional parece variar conforme o contexto político e midiático.

No caso do erro técnico:

  • Exposição pública da profissional
  • Ausência de suporte institucional visível
  • Julgamento antecipado pela opinião pública
  • Defesa individualizada, sem respaldo claro

No caso da denúncia:

  • Preservação de identidade
  • Apoio imediato de conselhos
  • Mobilização institucional
  • Narrativa protegida até investigação

Essa diferença levanta dúvidas legítimas dentro da categoria:

  • Por que uma técnica é exposta e outra protegida?
  • O critério é técnico ou político?
  • Existe seletividade na atuação dos conselhos?

Responsabilidade técnica vs. responsabilidade institucional

É inegável que erros na enfermagem precisam ser apurados com rigor. A administração incorreta de medicamentos pode ter consequências fatais e exige responsabilização quando comprovada negligência, imprudência ou imperícia.

No entanto, a análise não pode ser simplista.

A prática da enfermagem no Brasil enfrenta desafios estruturais conhecidos:

  • Jornadas exaustivas
  • Baixa remuneração
  • Ambientes com déficit de profissionais
  • Pressão constante por produtividade

Esses fatores aumentam significativamente o risco de falhas humanas.

Ao mesmo tempo, quando há denúncias de violência, a proteção da vítima é fundamental — mas isso não pode ocorrer de forma seletiva, sob pena de comprometer a credibilidade das instituições.


O papel do Coren sob questionamento

Os Conselhos Regionais de Enfermagem têm como função:

  • Fiscalizar o exercício profissional
  • Garantir a ética na prática
  • Proteger a sociedade
  • Apoiar os profissionais

No entanto, quando a atuação aparenta ser desigual, abre-se espaço para críticas severas:

  • Falta de isonomia
  • Atuação reativa e não técnica
  • Influência de pressões externas

No caso do menino Benício, não houve, até onde se observou publicamente, uma atuação firme no sentido de garantir à profissional:

  • Direito à ampla defesa
  • Preservação de identidade
  • Apoio jurídico ou institucional

Já no caso envolvendo denúncia contra figura pública, a atuação foi rápida, visível e contundente.


Entre o erro e a dignidade profissional

A enfermagem é uma das profissões mais essenciais do sistema de saúde. Técnicos e auxiliares estão na linha de frente, muitas vezes sob condições adversas.

Erros devem ser investigados. Violências devem ser denunciadas.
Mas, acima de tudo, o tratamento precisa ser equilibrado.

Nenhum profissional deve ser exposto como culpado antes da apuração completa.
Nenhuma denúncia deve ser ignorada ou relativizada.

O que se espera é coerência.


Conclusão: transparência e justiça como pilares

Os dois casos colocam em evidência um ponto crítico: a necessidade urgente de padronização na atuação dos órgãos de classe.

Sem critérios claros e isonômicos, a confiança na instituição se fragiliza — tanto entre os profissionais quanto perante a sociedade.

A enfermagem precisa de proteção, mas também de responsabilidade.
Precisa de rigor, mas também de justiça.

E, principalmente, precisa de instituições que atuem com imparcialidade — independentemente de quem esteja envolvido.



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