Josevan Santos
Dois pesos, duas medidas? Casos envolvendo técnicas de enfermagem expõem tratamento desigual e silêncio institucional
Enquanto profissional do caso Benício foi exposta publicamente após erro grave, técnica envolvida em denúncia contra senador segue protegida — e levanta debate sobre atuação seletiva dos conselhos
Dois pesos, duas medidas? Casos envolvendo técnicas de enfermagem expõem tratamento desigual e silêncio institucionalDois episódios recentes envolvendo técnicas de enfermagem reacenderam um debate sensível e necessário dentro da categoria: a forma como erros, denúncias e responsabilidades são tratados — tanto pela opinião pública quanto pelos órgãos de fiscalização profissional. De um lado, o caso do menino Benício, marcado por um erro técnico grave na administração de medicação. De outro, a denúncia envolvendo um senador da República, onde a técnica de enfermagem aparece como vítima. O contraste entre os dois cenários revela uma possível disparidade na atuação institucional e no suporte oferecido às profissionais.
Erro técnico com consequências graves: o caso Benício
O caso que ganhou repercussão nacional envolve a administração de adrenalina por via venosa em um contexto considerado inadequado para o quadro clínico do paciente. A medicação, de uso crítico e altamente sensível, exige conhecimento técnico rigoroso quanto à dose, diluição e via de administração.
A técnica de enfermagem responsável pelo procedimento acabou sendo imediatamente exposta. Sua identidade foi amplamente divulgada, ela concedeu entrevistas, tentou justificar sua conduta e se viu no centro de uma pressão pública intensa — tudo isso antes mesmo da conclusão de uma investigação técnica detalhada.
O episódio levanta questionamentos relevantes dentro da prática assistencial:
- Houve falha individual ou sistêmica?
- Existia supervisão adequada?
- O ambiente de trabalho favorecia erros (sobrecarga, falta de protocolos, pressão)?
Apesar dessas questões estruturais, o foco rapidamente recaiu exclusivamente sobre a profissional.
Denúncia de violência: um cenário oposto
Em outro caso de grande repercussão, uma técnica de enfermagem denunciou ter sido vítima de violência durante a realização de um exame clínico envolvendo uma figura pública de alto escalão político.
Diferente do caso anterior, a identidade da profissional foi preservada. O tratamento institucional foi imediato no sentido de acolhimento da denúncia, com posicionamentos firmes de entidades da enfermagem, notas públicas e manifestações de apoio.
Aqui, a narrativa muda completamente:
- A técnica é protegida
- Sua versão ganha respaldo institucional
- Há mobilização rápida de conselhos e entidades
O ponto central: onde está o equilíbrio?
O paralelo entre os dois casos escancara uma questão incômoda: a atuação do sistema de fiscalização profissional parece variar conforme o contexto político e midiático.
No caso do erro técnico:
- Exposição pública da profissional
- Ausência de suporte institucional visível
- Julgamento antecipado pela opinião pública
- Defesa individualizada, sem respaldo claro
No caso da denúncia:
- Preservação de identidade
- Apoio imediato de conselhos
- Mobilização institucional
- Narrativa protegida até investigação
Essa diferença levanta dúvidas legítimas dentro da categoria:
- Por que uma técnica é exposta e outra protegida?
- O critério é técnico ou político?
- Existe seletividade na atuação dos conselhos?
Responsabilidade técnica vs. responsabilidade institucional
É inegável que erros na enfermagem precisam ser apurados com rigor. A administração incorreta de medicamentos pode ter consequências fatais e exige responsabilização quando comprovada negligência, imprudência ou imperícia.
No entanto, a análise não pode ser simplista.
A prática da enfermagem no Brasil enfrenta desafios estruturais conhecidos:
- Jornadas exaustivas
- Baixa remuneração
- Ambientes com déficit de profissionais
- Pressão constante por produtividade
Esses fatores aumentam significativamente o risco de falhas humanas.
Ao mesmo tempo, quando há denúncias de violência, a proteção da vítima é fundamental — mas isso não pode ocorrer de forma seletiva, sob pena de comprometer a credibilidade das instituições.
O papel do Coren sob questionamento
Os Conselhos Regionais de Enfermagem têm como função:
- Fiscalizar o exercício profissional
- Garantir a ética na prática
- Proteger a sociedade
- Apoiar os profissionais
No entanto, quando a atuação aparenta ser desigual, abre-se espaço para críticas severas:
- Falta de isonomia
- Atuação reativa e não técnica
- Influência de pressões externas
No caso do menino Benício, não houve, até onde se observou publicamente, uma atuação firme no sentido de garantir à profissional:
- Direito à ampla defesa
- Preservação de identidade
- Apoio jurídico ou institucional
Já no caso envolvendo denúncia contra figura pública, a atuação foi rápida, visível e contundente.
Entre o erro e a dignidade profissional
A enfermagem é uma das profissões mais essenciais do sistema de saúde. Técnicos e auxiliares estão na linha de frente, muitas vezes sob condições adversas.
Erros devem ser investigados. Violências devem ser denunciadas.
Mas, acima de tudo, o tratamento precisa ser equilibrado.
Nenhum profissional deve ser exposto como culpado antes da apuração completa.
Nenhuma denúncia deve ser ignorada ou relativizada.
O que se espera é coerência.
Conclusão: transparência e justiça como pilares
Os dois casos colocam em evidência um ponto crítico: a necessidade urgente de padronização na atuação dos órgãos de classe.
Sem critérios claros e isonômicos, a confiança na instituição se fragiliza — tanto entre os profissionais quanto perante a sociedade.
A enfermagem precisa de proteção, mas também de responsabilidade.
Precisa de rigor, mas também de justiça.
E, principalmente, precisa de instituições que atuem com imparcialidade — independentemente de quem esteja envolvido.




COMENTÁRIOS